Sábado, 7 De Março : Cardeal Joseph Ratzinger


Meditando nesta parábola, não devemos esquecer a figura do filho mais velho. Em certo sentido, ele não é menos importante que o mais novo, de maneira que esta história podia muito bem ter como título, que talvez fosse até mais adequado, «Parábola dos dois irmãos». Com a figura dos dois irmãos, o texto situa-se no coração de uma longa história bíblica, que teve início com o episódio de Caim e Abel, foi retomada com os irmãos Isaac e Ismael, depois Jacob e Esaú, e é interpretada em diferentes parábolas de Jesus. Na pregação de Jesus, as figuras dos dois irmãos refletem sobretudo o problema da relação Israel-pagãos. [...] Ao descobrir que os pagãos são chamados sem estarem submetidos às obrigações da Lei, Israel exprime a sua amargura: «Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua»; com as palavras: «Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu», a misericórdia de Deus convida Israel a festejar. Mas o significado deste irmão mais velho é ainda mais abrangente. Em certo sentido, ele representa o homem devoto, ou seja todos os que permaneceram com o Pai sem desobedecer às suas ordens. O momento do regresso do pecador desperta o ciúme, esse veneno até então oculto no fundo da sua alma. Porquê este ciúme? Ele mostra que os muito «devotos» também escondem no seu coração o desejo do país longínquo e das suas seduções. A inveja revela que estas pessoas não compreenderam realmente a beleza da pátria, a felicidade do «tudo o que é meu é teu», a liberdade de ser filho e proprietário; parece que também elas desejam secretamente a felicidade do país longínquo. [...] E, no fim, não entram na festa; no fim, permanecem de fora. [...] A figura do irmão mais velho obriga-nos a um exame de consciência; esta figura permite-nos compreender a reinterpretação dos dez mandamentos que é feita no Sermão da Montanha (cf Mt 5,28). Não é não somente o adultério exterior, mas também o interior, que nos afasta de Deus: é possível permanecer em casa e ao mesmo tempo partir. É também deste modo que devemos compreender a «abundância», a estrutura da justiça cristã: ela traduz-se num «não» à inveja e num «sim» à misericórdia divina.